Acerca da cerca.


Acerca da cerca.

Existe um adágio popular que diz: "a praça é nossa", muito comumente usado por um conhecido programa de entretenimento, possivelmente com referências à um espaço público, de todos, para todos!
Mas, eu, humildemente pergunto: a praça é nossa?
Fechada para reforma desde março de 2018, (mais ou menos no auge da migração venezuelana para o nosso Estado, seria segregação?), a Praça Simon Bolívar (nome dado em homenagem ao líder político e militar venezuelano, ops! Chefe das revoluções que libertaram a Venezuela, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Bolívia do domínio espanhol), foi reaberta nesta última segunda feira 21 de janeiro, com algo a mais que chamou muito a atenção de transeuntes e possíveis usuários, o polêmico gradil ou, a cerca, que circunda toda a circunferência da mesma. Agora haverão apenas duas entradas/saídas da praça e horários deverão ser respeitados para a frequência, todos os dias de 6h da manhã às 18h da tarde. Serão hasteadas bandeiras do Brasil, da Venezuela, da Guiana (faltou uma bandeira branca) e saudações em quatro línguas saúdam os visitantes do passeio (nossa pracinha de babel). 
Segundo nossa excelentíssima prefeita, o que está causando tanto alvoroço com relação à cerca, é comum em outras partes do país. Fato! Concordo plenamente. Mas, o "ser comum" não se dá talvez e justamente porque aprendemos a tornar "comum" aquilo que de fato não deveria ser o senso comum? Ora, sim, prezemos pela segurança, afinal de contas é um passeio que fica em plena rotatória na entrada e saída de nossa capital. O local antes doravante era frequentado por pessoas à margem da sociedade (mais segregação?), drogados, desocupados, bêbados e prostitutas, gente que não parece gente e portanto se tornam invisíveis aos olhos de quem não os quer ver. Sim, apoio a iniciativa da da reforma da praça, da questão segurança, mas...vamos repensar a situação desta praça em plena rotatória movimentadíssima numa entrada e saída de uma cidade como nossa Boa Vista: a polêmica gira em torno da já alardeada cerca, por questões de estética, segurança, proteção e coisas afins. Porém, em centenas de comentários nas redes sociais, verifiquei  que as pessoas que "defendem" a manutenção da cerca, são as mesmas que sequer algum dia fizeram uso da referida praça. Muitos até se justificam por esta via de informação. Outros apoiam pelo simples conteúdo de repúdio aos "invasores venezuelanos", gente que veio roubar nossos empregos, nossa comida e agora a nossa praça (ou a praça é nossa). Neste último grupo percebo uma notoriedade de ira, rancor, ódio, sentimentos explícitos em palavras fortes, muitas vezes compostas por palavrões indescritíveis. Existe a segregação sim!
Vejamos. Se a praça não é usada nem mesmo por quem mora aqui, por que a briga com quem faz ou fazia uso dela? Eu sei, é feio uma praça com um amontoado de gente "desqualificada", cuja  falta de identidade não se enquadra ao espaço. Eu sei, que é um espaço público que serve como cartão postal de nossa capital. Eu sei, que segurança é fundamental e, segurança pode ser feita por guardas civis, pais preocupados com suas crianças, pessoas cuidando umas das outras. Porém, se tivéssemos que "isolar" todos os lugares "públicos" por uso destes de pessoas "inadequadas", teríamos que fazer isso em todos os lugares; Centro Cívico, Complexo Aírton Senna...daí por diante. Mas, perceba que o problema não está no espaço físico e sim na condição humana. O problema não são as cercas, o problema é a compreensão humana dos fatos. Cercamos nossas casas para deixar de fora o que possa nos causar mau e nos incomodar ou, porque acreditamos que o nosso espaço é único e inacessível, salvo aos que escolhemos como frequentadores? Podem ser as duas coisas ao mesmo tempo, mas preferimos nos cegar e acreditar numa falsa retórica de que, o argumento da proteção é palpável, convincente, só para não termos que dar maiores explicações e podermos dormir com a consciência tranquila. 
Ok! A praça não deve realmente ser moradia de "desocupados" ou "desalojados", seja por qual fatalidade for. Mas, cercá-la, colocar plaquinhas de "bienvenidos" e hastear uma bandeira como quem acende um cachimbo da paz com o chefe da tribo, não nos fará melhores que outrem em nada.
Como diria o célebre Raul Seixas:
"É você olhar no espelho, se sentir um grandesíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
E que só usa 10% de sua cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social
Eu é que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais"...
Devemos repensar o que somos antes mesmo de julgarmos os que não parecem ser idênticos a nós!

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